Lembrando Cláudia Lemos por Bruno Dallari
Cláudia morreu nesta sexta-feira à tarde (30/janeiro); fiquei sabendo quase na mesma hora, através de uma amiga comum. Estava na hora dela. Ela estava fraca e cansada, sabia que o fim estava próximo. Foram 91 anos vividos intensamente, como pesquisadora e intelectual apaixonada, incisiva, exigente. Uma presença poderosa, incontornável, que marcava qualquer ambiente em que estivesse, catalisava as conversas, seduzia as pessoas e as audiências, se impunha pela paixão e pela argumentação direta, articulada. Inesquecível e inigualável.
Eu entrei na Linguística por causa dela. Eu a conheci na SBPC do Rio de 1980, na UERJ. Assisti a uma mesa em que ela falou, sobre aquisição de linguagem da criança, gostei muito e fui conversar com ela em seguida. Ela me indicou outras mesas com o pessoal do IEL-Unicamp, estavam todos lá, Franchi, Ilari, Eni Orlandi, José Miguel Wisnik etc. Entendi imediatamente que aquela era a minha turma. E resolvi prestar vestibular para Linguística que, até então, eu mal sabia o que era.
Continuei me pautando pelo trabalho dela, longamente, até o final do meu mestrado. Num certo sentido, continuo até hoje - foi ela quem mudou, muito mais do que eu. A motivação geral, colocada por Franchi, era produzir uma formulação alternativa a de Chomsky, fazendo uma crítica à dele, mas reconhecendo sua consistência e robustez. Franchi investia no desenvolvimento de modelos gramaticais, tentando fazer com que, de algum modo, a semântica fizesse parte deles. Cláudia, na investigação da aquisição de linguagem pela criança, o terreno empírico que, se imaginava, iria prover respostas definitivas sobre o assunto (obviamente, não foi o caso). A psicolinguística foi um dos principais campos de batalha das disputas teóricas da Linguística daquele período, um papel que se esvaziou inteiramente algum tempo depois, sem jamais ser recuperado.
Não por acaso, o artigo programático de Franchi de 1977, Linguagem - atividade constitutiva, termina citando Piaget, pautando a gênese da linguagem e do conhecimento como parte de um só e o mesmo processo. É de onde Cláudia começa, estudando e fazendo a crítica a Piaget - mas também de Chomsky, logo em seguida. No início dos anos 1980, ela organizou um seminário de leitura do volume do debate Piaget-Chomsky, que tinha acabado de ser publicado no Brasil, do qual participei e durante o qual ela desenvolveu e expôs o que viria a ser o cerne da sua perspectiva, que rotulou como “sócio-interacionismo” (mais tarde, ela tirou o “sócio” e o renomeou, retroativamente, como “interacionismo brasileiro”).
O interacionismo era por conta da referência a Jerome Bruner, psicólogo norte-americano, um dos primeiros leitores de Vigotsky, que fazia da interação o mote contra o inatismo chomskiano. O “sócio”, com alguma ambiguidade entre o social geral da sociedade e a sociabilidade imediata dos indivíduos, era por conta de uma perspectiva de esquerda, partilhada por quase todo mundo naquela época, no Brasil e na América Latina, motivado pelo movimento contra as ditaduras vigentes no continente e muito associada a propostas emancipadoras de educação popular, como a de Paulo Freire. Quando a psicóloga e pedagoga argentina Emília Ferreiro veio ao Brasil, nos anos 1980, Cláudia foi considerada como uma das pesquisadoras com mais afinidade com o seu trabalho e organizaram uma conferência com as duas, com grande audiência.
Essa Cláudia Lemos parece distante anos-luz da que ela se tornou mais adiante, quando vinculou sua perspectiva inteiramente à psicanálise lacaniana, se pautando pelas ideias de Jean Claude Milner. O cerne da busca era o mesmo e ela própria inscrevia essa evolução mais na continuidade do que na ruptura. Não a acompanhei nessa direção, mas nunca deixei de achar interessante vê-la falar, de presenciar e me deixar contaminar pela atitude infatigável dela, de interpelar e tentar compreender os nossos objetos de investigação, de acreditar que valia a pena colocar perguntas certeiras sobre coisas que ninguém tinha pensado antes.
Uma vida bem vivida, intensa, interessante e generosamente compartilhada com quem conviveu com ela, acolhida por pessoas de perto e de longe - o que mais alguém pode querer?